O cenário regulatório global para cosméticos passa por uma transformação acelerada. Os métodos alternativos aos testes de cosméticos em animais estão no centro desse movimento.
Autoridades regulatórias vêm sinalizando, de forma cada vez mais clara, a expectativa de adoção de abordagens baseadas em ciência moderna, dados in vitro e modelos computacionais, com impactos diretos no desenvolvimento, na avaliação de segurança e nas estratégias de acesso a mercado.
Neste artigo, reunimos os principais avanços recentes envolvendo métodos alternativos, incluindo novas diretrizes da FDA, iniciativas regulatórias na União Europeia e atualizações técnicas na China que reforçam o rigor na fiscalização de cosméticos.
FDA avança no uso de métodos alternativos aos testes em animais
A Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos publicou um guia preliminar que incentiva o uso de New Approach Methodologies (NAMs) como alternativas aos testes em animais na avaliação de segurança de produtos regulados.
Essas metodologias incluem sistemas in vitro baseados em biologia humana, como organs‑on‑chips, além de modelos in silico e outras abordagens computacionais.
O documento faz parte de um movimento mais amplo da agência para deixar de tratar os testes em animais como método padrão, alinhando‑se a avanços científicos e a mudanças legais recentes, como o FDA Modernization Act 2.0.
A diretriz estabelece princípios claros para a aceitação regulatória dessas abordagens, como a definição do contexto de uso, a relevância biológica humana, a robustez técnica e a adequação ao propósito regulatório.
Embora o foco principal esteja no setor farmacêutico, a iniciativa sinaliza uma tendência relevante também para o setor de cosméticos, especialmente no que diz respeito à geração de evidências científicas e à expectativa de maior aceitação de dados alternativos pelas autoridades.
China reforça fiscalização com novos métodos oficiais de teste para cosméticos
A China também deu passos importantes ao atualizar seus padrões técnicos de segurança para cosméticos. O país incorporou novos métodos analíticos oficiais, incluindo testes específicos para canabidiol (CBD) e outras substâncias de interesse regulatório.
A medida fortalece a capacidade de fiscalização da autoridade chinesa e padroniza os ensaios laboratoriais utilizados em registros, notificações e ações de pós‑mercado.
Com métodos oficiais mais sensíveis e específicos, aumenta a exigência sobre a qualidade dos dados analíticos apresentados pelas empresas, especialmente no caso de produtos importados.
Na prática, isso exige maior alinhamento entre estratégias globais de testes e as expectativas técnicas específicas do mercado chinês.
União Europeia amplia o uso de IA e dados na avaliação regulatória
Na União Europeia, reguladores atualizaram um plano de trabalho conjunto para ampliar o uso de inteligência artificial e big data nos processos regulatórios ao longo dos próximos anos.
A iniciativa, liderada pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA), busca melhorar a interoperabilidade de dados, facilitar a geração de evidências e tornar as decisões regulatórias mais eficientes.
Esse movimento reforça o papel de abordagens baseadas em dados do mundo real, análises avançadas e ferramentas digitais no suporte à avaliação de segurança e desempenho de produtos regulados.

Anvisa amplia protagonismo internacional em dispositivos médicos
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) assumiu novas responsabilidades estratégicas no International Medical Device Regulators Forum (IMDRF). Isso aconteceu durante a 29ª reunião do Comitê Gestor do fórum, realizada em Singapura.
O IMDRF é o principal espaço global de cooperação regulatória para dispositivos médicos e IVDs, com foco na convergência de requisitos e no fortalecimento de boas práticas regulatórias.
Entre os destaques, a Anvisa passou a exercer a copresidência do Grupo de Trabalho de Sistema de Gestão da Qualidade (QMS), em conjunto com a Comissão Europeia, além de assumir a vice‑presidência do Medical Device Single Audit Program (MDSAP).
Essas posições reforçam o papel do Brasil nas discussões técnicas internacionais sobre auditorias, sistemas de qualidade e harmonização regulatória.
Para empresas que atuam nos mercados brasileiro e internacional, esse movimento pode influenciar, no médio prazo, a forma como requisitos de qualidade, auditorias e evidências técnicas são discutidos e reconhecidos entre diferentes autoridades.
Novidades que entram como parte da estratégia regulatória
As iniciativas da FDA, da União Europeia e da China mostram que os métodos alternativos aos testes de cosméticos em animais deixaram de ser uma tendência futura para se tornarem um elemento estratégico do presente.
Para empresas que atuam em múltiplos mercados, acompanhar essas mudanças é essencial para reduzir riscos regulatórios, evitar retrabalhos em testes e garantir maior previsibilidade nos processos de submissão.
Mais do que uma questão ética ou tecnológica, a adoção de métodos alternativos exige planejamento regulatório, avaliação de aceitação por diferentes autoridades e integração entre desenvolvimento, testes e estratégia de acesso a mercado.
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